domingo, 5 de agosto de 2007

Sementeiras e semeadores

Escrevi assim:
" Patrão,
O agricultor, às vezes, desespera. Cheio de esperança, lançou a semente à terra, mas repara, entretanto, que a sua superfície se encrosta, se tinge de castanho e fica com ar de esterilidade absoluta.
- "Perdi a sementeira!" - pensa.
E quando, cansado de tanto esperar,se prepara, novamente, para revolver a terra, verifica que, num pequeno fendilhamento, surge, tímida, uma plantinha.
Alegram-se-lhe os olhos e, dias passados, vê, viçosa, a seara esperada.
(...)
Veio a resposta:
"Olá, caro amigo,
Nós, mesmo que não pareça, é nisto que acreditamos, é que a terra está preparada, que há semeadores e boas sementes, mas que a chuva cai onde e quando quer. Assim é a vida, sem desespero algum.
Um abraço forte!"
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A Caminho do Guruè

De Nampula ao Guruè são uns centos de Km, em picada dífícil, que as chuvas, ao tempo, acabaram por piorar.
Dada a distância e as condições a viagem iniciou-se ao romper da madrugada. Haveríamos de pernoitar em Alto Molocué e, no dia seguinte, rodar, nas mesmas condições difíceis, até ao Guruè. O objectivo era verificar as condições locais para implementar uma escola profissional.
A opção restaurativa confinava-se à galinha assada ao almoço, repetindo-a ao jantar e assim sucessivamente.
O Gurè, antiga Vila Junqueiro, é um milagre de verdura:as encostas revestidas de plantações de chá são como imensos mantos verdes estendidos sobre o enrugado da terra; a nebelina nas alturas, roçando nas faldas das serras, as flores em explosivo aparecimento, as montanhas, mais longe, a debroarem o espaço, dão ao Guruè um aspecto de ilha verde, circundada, mais ao longe, muito longe, pelo agreste da savana africana.
Feito o trabalho e visitada a escola, foi o regresso a Nampula, novamente com pernoita intermédia em Alto Molocuè.
Na mesma Pensão Cruzeiro, agora sem água nem luz por via do gerador avariado, chegou o "cardápio falado" : - "galinha assada e cabrito".
Saltaram de alegria as minhas papilas gustativas: finalmente, iria saborear cabrito, deixando as já insípidas carnes galináceas.
-Quero cabrito, determinei!
Para meu espanto, nenhum dos meus companheiros alinhou na minha alternativa.
-Porquê, não estão fartos de galinha ?
- É que -esclareceu, timidamente, o engenheiro das construções escolares- por aqui há muito cão!
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sábado, 28 de julho de 2007

Irmã Susana - Irmã Sorriso

Infelizmente só a conheci em Outubro de 2005, apesar de eu estar em Moçambique desde 2001.
O nosso primeiro contacto foi telefónico mas, uma vez em linha, “intimou-me” a ir de imediato à sua Escola de Mumemo que queria ver transformada em “Escola Profissional de São Francisco de Assis”
Apesar da agenda carregada acedi, espicaçado também pelo desejo de conhecer quem me impunha, de maneira tão pouco formal, este encontro.
O “meeting point” foi o posto policial de controlo, à saída da cidade e a senha e contra senha para nos identificarmos foi a marca e a matrícula das nossas viaturas.
Esperei um bom (e desesperante) espaço de tempo (agora compreendo que a Irmã Susana necessite de atrasos para dar andamento a tanta coisa!) mas espantei-me quando vi sair de uma desconfortável dupla cabine, uma freira, risonha e bem disposta, que por detrás de uma alegria contagiante esconde os anos que por ela já passaram.
Saudou-me efusivamente, como se já nos conhecêssemos há largos anos, disparando à queima-roupa que “iria precisar muito de mim!”
Passando para o meu carro, viajámos até ao local da sua escola (eu direi, da sua grande Obra) e cedo me apercebi da força tranquila que residia naquela Mulher, irradiante de simpatia, serena e determinada, que trabalha como quem nada faz. Que encara os desafios com um sorriso, que cumpre, cheia de coragem, a nobre tarefa de ajudar, ajudar sempre, os necessitados, os excluídos, os marginalizados, os doentes, os sem abrigo, pais e filhos, que recolhe nos seus braços as crianças que lhe são entregues ou que encontra sós, abandonadas, debaixo da copa de um cajueiro ou nas bermas das estradas deste vasto país.
A Irmã Susana é uma mulher de esperança e nela habitam também as esperanças legítimas de tantos e tantos moçambicanos.
As suas mãos tanto afagam as crianças do seu infantário como se erguem, em tom impositivo, para aqueles que merecem reparos. Por si passa tudo. Detém, nessas mãos, como que invisíveis cordéis que tudo fazem mecher, numa busca incessante dos caminhos do Bem.
Que bom é conhecê-la, Irmã Susana, Irmã Sorriso.

"Os Vascos"

Um amigo meu que já por aqui anda desde os tempos coloniais, profundo conhecedor da realidade africana, ao referir-se aos novos quadros que chegam de Portugal e que se apresentam muito engravatadinhos, de fato cinzento, gel no cabelo e sapatos espelhados, chama-lhes : "os Vascos".
-Porquê ? - indaguei.
-Porque vieram fazer a segunda descoberta de Moçambique - retorquiu.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Bilene II (2003)

Na "aberta", sentado na areia, olho a imensidão do Índico e vejo dois mares: ao lonje, um mar liso, sereno, apelativo e brando, que parece o prolongamento natural do lago sossegado que lhe está à ilharga; mais perto, junto à praia, um mar enrugado e bravio, certamente a protestar, em franjas de espuma que se espalha,violentamente areia acima, contra a presença de estranhos...

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Casamento

Não esperava por esta.
Fui convidado para padrinho de casamento.
"Em Roma, sê romano" e, sendo aqui a vida tão ritualizada, procurei, junto da minha empregada, saber dos procedimentos correctos.
- "Bem" - começou ela de forma pausada e tipicamente africana - "na nossa tradição, ser padrinho é pesado, mas é uma grande honra. Em todas as cerimónias quem vai mandar é o padrinho; deve preocupar-se com as fotos, o enfeite para o carro dos noivos, o passeio, a cerimónia do lobolo, o bolo da noiva, a prenda, o copo de água servido na visita à casa da noiva, o aluguer do clube ou salão para a festa, marcar as horas, abrir e encerrar todos os momentos, assinar os termos. É pesado mesmo, patrão, mas não podes dizer que não a esses teus novos filhos, que muito precisam de ti".
Assim seja!

Praia do Bilene (2003)

As casuarinas,
saltam da areia
em explosões de vida.
As crianças acariciam
as sombras com brincadeiras
e gargalhadas.
O lago, debruado pelas dunas,
adocica a existência
e parece quebrar as angústias
de quem o olha