Tenho vivido entre a razão e a emoção.
Pela razão, tropeço, a maior parte das vezes, nas baias das proibições e do socialmente correcto.
Pela emoção, corto amarras e vôo. Posso voar baixinho, mas vôo!
Hoje disseram-me que, por aqui, o excesso de emoção pode ser interpretado como neocolonialismo.
Só me faltava mais esta!
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
domingo, 12 de agosto de 2007
Torga - Canção do Semeador
Ainda agora, em Trás-os-Montes, andei com o Torga sempre à ilharga. Hoje e aqui, nestas terras à beira Índico, (que o Torga também contemplou e descreveu), apetece-me revisitá-lo.
" Na terra negra de vida,
Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.
Mas todo o semeador
Semeia contra o presente
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente"
In Nibit Sibi - 1948
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Capitalismo Vacuum
Vejamos:
Capitalismo ideal: Você tem duas vacas, vende uma, compra um boi, vem uma manada, vende a manada, fica rico, e "bate o charuto".
Capitalismo americano: Você tem mil vacas, vende uma, compra hormonas e consegue que as 999 produzam o leite de 4 000! Não tem escoamento para tanta produção. Bombardeia as manadas do Iraque, saca petróleo, entretanto as criancinhas ficam raquíticas e, como tem bom coração,exporta os excedentes para este país. Com os derivados do petróleo faz rações, as populações ficam intoxicadas, mas os investigadores inventam fármacos para eliminar esses efeitos; as multinacionais comercializam-nos a preços proibitivos.
Capitalismo japonês:Vocês tem duas vacas. Redesenha-as, reduzindo-as ao tamanho de uma vaca normal e prooduz vinte vezes mais leite. Cria, entretanto, desenhinhos de vacas chamadas vaquimon e vende-as para todo o mundo.
Capitalismo britânico: Você tem duas vacas. Ao verificar que ambas são loucas, comercializa-lhes rapidamente pele e chifres, faz lindos e caros objectos que impulsionam os compatriotas a seguirem-lhe o exemplo e cria uma indústria a partir dessa loucura.
Capitalismo holandês: Você tem duas vacas. Vivem em união de facto. Não gostam de bois. Bons em marketing, mundializam a situação, cresce o turismo para ver aquelas vacas e entram divisas de todo o mundo, via turistas.
Capitalismo alemão: Você tem duas vacas. Produzem leite regularmente, segundo padrões de quantidade e horário previamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa. Mas o que você queria mesmo era criar porcos.
Capitalismo russo:Você tem duas vacas. Conta-as e vê que tem cinco. Conta-as, de novo, e vê que tem quarenta e duas. Volta a contar e vê que tem doze. Pára de contar e abre outra garrafa de vodka.
Capitalismo suiço: Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua. Cobra para guardar as vacas dos outros, sobretudo vindas de países onde é proibido criar vacas. As vacas são numeradas, distribuídas por vários currais e ninguém sabe a identidade do dono original. Entretanto o dono finou-se num acidente e o pastor ficou com as vacas.
Capitalismo espanhol: Você tem imenso orgulho em ter duas vacas.
Capitalismo brasileiro: Você tem duas vacas, ensina-lhes a sambar e reclama porque o rebanho não cresce.
Capitalismo hindú: Você tem duas vacas, ai de quem tocar nelas.
Capitalismo português: Você tem duas vacas que comprou através do Fundo Social Europeu. O Governo cria o IVA (Imposto Vacuum Acrescentado). Vende uma vaca para pagar o imposto. O fiscal aparece e multa-o, embora você tenha pago correctamente o IVA, o valor devido era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais. O Ministério das Finanças, por meio de dados também presumidos do seu consumo de leite, queijo, sapatos, coiro e botões, presume que você tenha duzentas vacas. Para se livrar do incómodo você dá a vaca que resta ao inspector das finanças para que ele feche os olhos e dê um jeitinho.
Capitalismo moçambicano: Você tem duas vacas. Um dia, não se sabe como, apareceram-lhe no curral mais mil vacas. Cada uma bebe por dia 50 litros de água. Amigos do alheio, munidos de AKM passaram por ali e levaram-lhe 1001 vacas. Passado um ano após o roubo, veio a AdM (Águas de Moçambique) e facturou-lhe a água em função das cabeças de gado que já não tinha e para evitar pagar dinheiro que não tinha entregou a vaca ao funcionário das àguas de Maputo e foi colocar uma banca à beira da estrada para vender papaias e laranjas. Veio a Polícia Municipal, levou-lhe a banca e você sacou o cabrito ao vizinho.
Capitalismo angolano: Você tem duas vacas. Enfeitou-as com diamantes e gritou orgulhoso: "vacas com as nossas não há em parte nenhuma do mundo"."
domingo, 5 de agosto de 2007
Sementeiras e semeadores
" Patrão,
O agricultor, às vezes, desespera. Cheio de esperança, lançou a semente à terra, mas repara, entretanto, que a sua superfície se encrosta, se tinge de castanho e fica com ar de esterilidade absoluta.
- "Perdi a sementeira!" - pensa.
E quando, cansado de tanto esperar,se prepara, novamente, para revolver a terra, verifica que, num pequeno fendilhamento, surge, tímida, uma plantinha.
Alegram-se-lhe os olhos e, dias passados, vê, viçosa, a seara esperada.
(...)
Veio a resposta:
"Olá, caro amigo,
Nós, mesmo que não pareça, é nisto que acreditamos, é que a terra está preparada, que há semeadores e boas sementes, mas que a chuva cai onde e quando quer. Assim é a vida, sem desespero algum.
Um abraço forte!"
A Caminho do Guruè
Dada a distância e as condições a viagem iniciou-se ao romper da madrugada. Haveríamos de pernoitar em Alto Molocué e, no dia seguinte, rodar, nas mesmas condições difíceis, até ao Guruè. O objectivo era verificar as condições locais para implementar uma escola profissional.
A opção restaurativa confinava-se à galinha assada ao almoço, repetindo-a ao jantar e assim sucessivamente.
O Gurè, antiga Vila Junqueiro, é um milagre de verdura:as encostas revestidas de plantações de chá são como imensos mantos verdes estendidos sobre o enrugado da terra; a nebelina nas alturas, roçando nas faldas das serras, as flores em explosivo aparecimento, as montanhas, mais longe, a debroarem o espaço, dão ao Guruè um aspecto de ilha verde, circundada, mais ao longe, muito longe, pelo agreste da savana africana.
Feito o trabalho e visitada a escola, foi o regresso a Nampula, novamente com pernoita intermédia em Alto Molocuè.
Na mesma Pensão Cruzeiro, agora sem água nem luz por via do gerador avariado, chegou o "cardápio falado" : - "galinha assada e cabrito".
Saltaram de alegria as minhas papilas gustativas: finalmente, iria saborear cabrito, deixando as já insípidas carnes galináceas.
-Quero cabrito, determinei!
Para meu espanto, nenhum dos meus companheiros alinhou na minha alternativa.
-Porquê, não estão fartos de galinha ?
- É que -esclareceu, timidamente, o engenheiro das construções escolares- por aqui há muito cão!
sábado, 28 de julho de 2007
Irmã Susana - Irmã Sorriso
Infelizmente só a conheci em Outubro de 2005, apesar de eu estar em Moçambique desde 2001.
O nosso primeiro contacto foi telefónico mas, uma vez em linha, “intimou-me” a ir de imediato à sua Escola de Mumemo que queria ver transformada em “Escola Profissional de São Francisco de Assis”
Apesar da agenda carregada acedi, espicaçado também pelo desejo de conhecer quem me impunha, de maneira tão pouco formal, este encontro.
O “meeting point” foi o posto policial de controlo, à saída da cidade e a senha e contra senha para nos identificarmos foi a marca e a matrícula das nossas viaturas.
Esperei um bom (e desesperante) espaço de tempo (agora compreendo que a Irmã Susana necessite de atrasos para dar andamento a tanta coisa!) mas espantei-me quando vi sair de uma desconfortável dupla cabine, uma freira, risonha e bem disposta, que por detrás de uma alegria contagiante esconde os anos que por ela já passaram.
Saudou-me efusivamente, como se já nos conhecêssemos há largos anos, disparando à queima-roupa que “iria precisar muito de mim!”
Passando para o meu carro, viajámos até ao local da sua escola (eu direi, da sua grande Obra) e cedo me apercebi da força tranquila que residia naquela Mulher, irradiante de simpatia, serena e determinada, que trabalha como quem nada faz. Que encara os desafios com um sorriso, que cumpre, cheia de coragem, a nobre tarefa de ajudar, ajudar sempre, os necessitados, os excluídos, os marginalizados, os doentes, os sem abrigo, pais e filhos, que recolhe nos seus braços as crianças que lhe são entregues ou que encontra sós, abandonadas, debaixo da copa de um cajueiro ou nas bermas das estradas deste vasto país.
A Irmã Susana é uma mulher de esperança e nela habitam também as esperanças legítimas de tantos e tantos moçambicanos.
As suas mãos tanto afagam as crianças do seu infantário como se erguem, em tom impositivo, para aqueles que merecem reparos. Por si passa tudo. Detém, nessas mãos, como que invisíveis cordéis que tudo fazem mecher, numa busca incessante dos caminhos do Bem.
Que bom é conhecê-la, Irmã Susana, Irmã Sorriso.
O nosso primeiro contacto foi telefónico mas, uma vez em linha, “intimou-me” a ir de imediato à sua Escola de Mumemo que queria ver transformada em “Escola Profissional de São Francisco de Assis”
Apesar da agenda carregada acedi, espicaçado também pelo desejo de conhecer quem me impunha, de maneira tão pouco formal, este encontro.
O “meeting point” foi o posto policial de controlo, à saída da cidade e a senha e contra senha para nos identificarmos foi a marca e a matrícula das nossas viaturas.
Esperei um bom (e desesperante) espaço de tempo (agora compreendo que a Irmã Susana necessite de atrasos para dar andamento a tanta coisa!) mas espantei-me quando vi sair de uma desconfortável dupla cabine, uma freira, risonha e bem disposta, que por detrás de uma alegria contagiante esconde os anos que por ela já passaram.
Saudou-me efusivamente, como se já nos conhecêssemos há largos anos, disparando à queima-roupa que “iria precisar muito de mim!”
Passando para o meu carro, viajámos até ao local da sua escola (eu direi, da sua grande Obra) e cedo me apercebi da força tranquila que residia naquela Mulher, irradiante de simpatia, serena e determinada, que trabalha como quem nada faz. Que encara os desafios com um sorriso, que cumpre, cheia de coragem, a nobre tarefa de ajudar, ajudar sempre, os necessitados, os excluídos, os marginalizados, os doentes, os sem abrigo, pais e filhos, que recolhe nos seus braços as crianças que lhe são entregues ou que encontra sós, abandonadas, debaixo da copa de um cajueiro ou nas bermas das estradas deste vasto país.
A Irmã Susana é uma mulher de esperança e nela habitam também as esperanças legítimas de tantos e tantos moçambicanos.
As suas mãos tanto afagam as crianças do seu infantário como se erguem, em tom impositivo, para aqueles que merecem reparos. Por si passa tudo. Detém, nessas mãos, como que invisíveis cordéis que tudo fazem mecher, numa busca incessante dos caminhos do Bem.
Que bom é conhecê-la, Irmã Susana, Irmã Sorriso.
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